Thursday, August 11, 2005

O Gaspacho
(texto escrito para o blogue No Mundo no dia 2 de junho de 2005)
Nos últimos dias tenho tropeçado num pequeno filme publicitário que pretende mostrar as virtudes de mais um produto de uma conhecida empresa multinacional que se movimenta no ramo da alimentação. O alvo, desta vez, é a cozinha mediterrânica. Sabendo que esta não vive sem diversidade, produtos frescos e espaços abertos, não é possível reagir a tal desrespeito pela inteligência do consumidor sem um sorriso de escárnio. Um produto industrial, consumido em espaços fechados e assépticos, como representante da cozinha mediterrânica!? Patético. Mas, enfim, deixemos mais este disparate e concentremo-nos na verdadeira gastronomia do sul europeu. Troquemos a proposta ignara e aproveitemos os dias de calor para apreciar o ilustre gaspacho andaluz.
O gaspacho não é prato estranho à gastronomia portuguesa. Encontra-se no Alentejo e no Algarve com os legumes toscamente cortados - na maior parte dos casos - ou triturados, num estilo que está mais associado ao sul de Espanha. Nenhuma das versões se pode vangloriar de ter o sabor mais sedutor. Ambas se recomendam. Escolhi a receita andaluza para homenagear a cozinha da região, que é, sem dúvida, uma das melhores do mundo, embora seja, incompreensivelmente, pouco conhecida em Portugal (nem vale a pena falar das manifestações habituais de repúdio pela gastronomia espanhola; estas, apenas revelam uma qualquer espécie de demência crónica).
Junta-se, num recipiente largo e alto, um quilo de tomate, um pimento verde, meio pepino, uma cebola, três ou quatro cabeças de alho, uma fatia de pão, uma chávena de azeite, meia chávena de vinagre, uma colher de chá de colorau, uma colher de sopa de orégãos, sal, pimenta e cominhos (aconselho cominhos negros, uma variante mais suave da semente, a qual descobri recentemente num mercado turco de Berlim). Os mais obcecados com a forma da cintura podem ignorar o pão, pois tal variante não resulta menos atractiva. Tritura-se tudo até se obter uma pasta uniforme, sem medo de recorrer a auxiliares eléctricos para a tarefa. Junta-se cerca de um litro de água e mexe-se (a quantidade de água apenas afecta a cremosidade do gaspacho; pode-se, por isso, colocar mais ou menos, consoante o resultado pretendido). Coloca-se no frigorífico durante algumas horas. Serve-se frio, com cubos de gelo.
Este prato sujeita-se bem a variações nas quantidades, e até aceita sem reservas a introdução de novos ingredientes. No livro do qual foi retirada a base desta proposta, podem ver-se oito receitas diferentes de gaspacho, onde entram, para além dos ingredientes mencionados em cima, ovos, amêndoas, e até beterraba.
O gaspacho é um ícone da gastronomia mediterrânica. É uma fonte de prazer e frescura nestes dias quentes que prenunciam o verão. É saboroso, é saudável e é barato. Foram estas características que lhe permitiram evoluir e sobreviver numa região pobre, cujos habitantes sempre aproveitaram, de uma forma criativa, aquilo que a terra lhes dá.

Carlos Miguel Fernandes

6 comments:

Ana [Lua] said...

hummm...
suspeito que este blog vai ser delicioso!

Bruno said...

Já experimentei a tua receita há umas semanas: marchou todo, às duas taças de cada vez! Faltaram apenas os cominhos negros, mas a sua substituição por vulgares cominhos em pó, mesmo assim, não exibiu uma diferença demasiado notória para o que acabou por ficar no meu frigorífico, intocado, após a nossa pequena grande patuscada...

Pedro said...

No Algarve é conhecido por "arjamolho". E só o descobri porque arranjei um caldinho a um amigo brasileiro por lhe jurar que o tinham enganado no Brasil: "arjamolho" não era nem nunca fora nome de sopa portuguesa. Depois da confusão e de muito procurar, lá descobri que, afinal, era criação algaraveta.

AJFF said...

Óptimo conceito para um blog.

De comer e chorar por mais.

Jose galamba said...

deve ser delicioso continuem a publicar mais.

Anonymous said...

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